quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Bobók - 3. Não, eu ainda gostaria de viver! - Dostoiévski

Fiódor Dostoiévski


3.


Não, eu ainda gostaria de viver! Não... eu, fiquem sabendo, eu ainda gostaria de viver! — ouviu-se de repente a voz nova de alguém n’algum canto entre o general e a senhora irritadiça. 

— Ouvi, Excelência, o nosso vizinho volta a bater na mesma tecla. Há três meses calado, e de repente: “Eu ainda gostaria de viver, não, eu ainda gostaria de viver!”. E com que apetite, hi-hi! 

— E leviandade. 

— Está atônito, Excelência, e ficai sabendo, está entrando no sono, no sono definitivo, já está aqui desde abril, mas de repente: “Eu ainda gostaria de viver!”. 

— Isso é meio maçante, convenhamos — observou sua Excelência. 

— Meio maçante, Excelência; não seria o caso de tornarmos a mexer com Avdótia Ignátievna, hi-hi?

 — Isso não, peço que me dispense. Não consigo suportar essa gritalhona provocante. 

— Já eu, ao contrário, não consigo suportar vocês dois — respondeu a gritalhona com nojo. — Vocês dois são os mais maçantes e não sabem falar de nada em que haja ideal. A seu respeito, Excelência — por favor, não sejais presunçoso —, conheço aquela historiazinha em que o criado vos varreu com a vassoura de debaixo da cama de um casal ao amanhecer. 

— Mulher detestável! — rosnou o general entre dentes. 

— Minha cara Avdótia Ignátievna — tornou a gritar subitamente o vendeiro —, minha senhorinha, esquece o mal e me diz se eu tenho de passar por todas essas provações ou devo agir de outro jeito?

— Ah, lá vem ele com a mesma ladainha, eu bem que pressenti, pois estou sentindo o cheiro que vem dele, o cheiro, porque é ele que está se mexendo! 


— Não estou me mexendo, minha cara, e não é de mim que está saindo nenhum cheiro especial, porque eu ainda estou inteiro no meu corpo plenamente conservado; já a senhorinha se mexeu mesmo, porque o cheiro é realmente insuportável até para um lugar como este. É só por delicadeza que eu fico calado. 

— Ah, esse ofensor detestável! Fede que é um horror e diz que sou eu. 

— Oh-oh-oh-oh! Se pelo menos os nossos acabassem logo essa quarentena: escuto sobre mim vozes chorosas, o pranto da mulher e o choro baixinho dos filhos!... 

— Vejam só por que ele está chorando: vão encher a pança de kutyá e ir embora. Ah, se ao menos alguém acordasse! 

— Avdótia Ignátievna — falou o funcionário bajulador. — Espere um segundinho, os novatos vão falar. 

— Também há jovens entre eles? 

— Também há jovens, Avdótia Ignátievna. Até rapazinhos. 

— Ah, como viriam a propósito! 

— E por que ainda não começaram? — quis saber sua Excelência. 

— Nem os de anteontem acordaram, Excelência, o senhor mesmo sabe que às vezes ficam uma semana calados. Ainda bem que de repente trouxeram muitos ontem, anteontem e hoje. Senão a umas dez braças ao redor todos seriam do ano passado. 

— É, interessante. 

— Pois bem, Excelência, hoje sepultaram o conselheiro efetivo secreto Tarassiêvitch. Reconheci-o pelas vozes. Conheço seu sobrinho, que ainda há pouco fez descer o caixão dele. 

— Hum, onde estará ele por aqui? 

— A uns cinco passos do senhor, Excelência, à esquerda. Quase bem aos vossos pés... Seria bom que os senhores se conhecessem, Excelência. 

— Hum, essa não... eu, dar o primeiro passo. 

— Ora, ele mesmo tomará a iniciativa, Excelência. Ele vai se sentir até lisonjeado, deixai comigo, Excelência, e eu... 

— Ah, ah... ah, o que está acontecendo comigo? — súbito começou a ofegar a vozinha novata e assustada de alguém. 

— Um novato, Excelência, um novato, graças a Deus, e foi tão depressa! Noutras ocasiões passam uma semana sem falar. 

— Ah, parece que é um jovem! — guinchou Avdótia Ignátievna. 

— Eu... eu... eu tive uma complicação, e tão de repente! — tornou a balbuciar o rapazinho. — Schultz me disse ainda na véspera: o senhor, diz ele, está com uma complicação, e de repente morri ao amanhecer. Ah! Ah! 

— Bem, não há o que fazer, meu jovem — observou o general cheio de benevolência e notória alegria pelo novato —, precisa consolar-se. Seja bem-vindo ao nosso, por assim dizer, vale de Josafá. Somos gente bondosa, vós o sabereis e apreciareis. General-major Vassíli Vassíliev Piervoiêdov para servi-lo. 

— Ah, não! não, não, de jeito nenhum! Estava no consultório de Schultz; andava com uma complicação, primeiro senti o peito tomado e tosse, depois peguei uma gripe: o peito e a gripe... e de repente tudo inesperado... e o pior, totalmente inesperado. 

— O senhor está dizendo que primeiro foi o peito — intrometeu-se brandamente o funcionário, como se quisesse animar o novato. 

— Sim, o peito e escarro, depois desapareceu o escarro e não senti o peito, não conseguia respirar... o senhor sabe... 

— Sei, sei. Mas se era peito, seria melhor o senhor ter ido a Eckoud e não a Schultz. 

— Sabe, eu estava para ir a Bótkin... mas de repente... 

— Bem, Bótkin arranca os olhos da cara — observou o general. 

— Não, ele não arranca olho nenhum; ouvi dizer que ele é muito atencioso e antecipa tudo. 

— Sua Excelência observou a propósito do preço — emendou o funcionário. 

— Ah, o que é isso, apenas três rublos, e ele examina tão bem, e receita... e eu queria sem falta, porque me disseram... Então, senhores, devo ir a Eckoud ou a Bótkin? 

— O quê? Aonde? — com uma gargalhada agradável começou a agitar-se o cadáver do general. O funcionário o repetiu em falsete. 

— Querido menino, meu menino querido e radiante, como eu te amo! — ganiu em êxtase Avdótia Ignátievna. — Ah, se colocassem um assim ao meu lado! 

Não, isso eu já não posso admitir! e olhe que esse é um morto moderno! Entretanto, vamos ouvir mais e sem pressa de concluir. Esse fedelho novato — lembro-me dele ainda há pouco no caixão — é a expressão de um frango assustado, a mais asquerosa do mundo! Mas vejamos o que vem pela frente.


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Dostoiévski, Fiódor, 1821-1881 D724b Bobók / Fiódor Dostoiévski; tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra; desenhos de Oswaldo Goeldi; texto de Mikhail Bakhtin. — São Paulo: Editora 34, 2012 (1ª Edição). 96 p. (Coleção Leste)


1. Literatura russa. I. Bezerra, Paulo. II. Goeldi, Oswaldo, 1895-1961. III. Bakhtin, Mikhail, 1895-1975. IV. Título. V. Série.

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BOBÓK*

*Publicado originalmente no semanário Grajdanin (O Cidadão), nº 6, em 5 de fevereiro de 1873, quando Dostoiévski já era seu redator-chefe. Traduzido do original russo Pólnoie sobránie sotchiniénii v tridtsatí tomákh (Obras completas em trinta tomos) de Dostoiévski, tomo XXI, Leningrado, Ed. Naúka, 1980. As notas da edição russa estão assinaladas com (N. da E.); as notas do tradutor, com (N. do T.).

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