sexta-feira, 14 de março de 2014

Já desencarrilhei e louqueei

Teatro Pedagógico 09
baitasar
Para enfrentar uma escola de gritos e silêncios não basta falar da esperança, precisamos da ação com esperança. Incrível como o rock me devolveu a esperança justamente porque não era uma esperança, mas uma oportunidade de gritar e desaforar, sendo diferente do papai e da mamãe que depois me tornei
—        Muita conversa, muita teoria sobre dinossauros e seres invasores de corpos. Isso é fantasia muito boa como roteiro de cinema. Quero ver na prática com 25 pequenos demônios, queridos, amados que precisam ser alfabetizados. Pais ansiosos, estatísticas, choros, incapacidades, as ditas inclusões.
—        Ensinar a ler e escrever os pequenos? Moleza, Acemira. Quero ver construir o diálogo da consciência e da boniteza dos números no 6º, 7º ano, e por aí a fora.
Não sei se foi resmungo de indignação ou comentário provocador. Ninguém diz ou disse que é fácil, mas parece que só temos ouvidos para as lamúrias. Decido sair do meu silêncio e arriscar me contradizer
—        Não basta falarmos em esperança com fé ou sem fé na esperança, precisamos agir esperançosas. O Marko nos lembra de dois coletivos que precisam se reeducados como um só coletivo pedagógico. Como ter esperança na educação de um coletivo que não se enxerga agressor? Opera o poder na escola e se diz vítima?
Parei.
Preciso respirar e fechar os olhos. Minhas mãos tremem. O Paulo continua voltado para o fundão da sala, seus olhinhos sorriem. Ou quero pensar que aquele sorriso afetuoso é para mim. Procuro pelo Marko, ele me olha sério, por trás dos óculos de aro fino escondeu seu sorriso distante e enigmático. Descobri que além de respeito por mim mesma, dos meus alunos e alunas, quero o respeito dos dois
—        É bem assim, Anita. É urgente lutar por nossos sonhos. Uma educação que educa para a ruptura dos paradigmas cultiva decisões éticas por opção e não por imposição. Uma educação que educa com o coração encara o difícil e o fácil, frente a frente, sem medo de estar ao lado dos oprimidos, dos feios e das feias. Aliás, feios ou feias para quem?
—        Sem deixar de ser uma educação boa e gostosa para os adocicados com perfume importado, hein Paulo?
—        Não desistindo de transformar em poesia cada novo dia, Anita. Como? Invente a sua poesia. Reescreva a sua história. Eu acredito no carinho e na alegria para fazer uma educação interessada e criativa.
—        E quem acredita no silêncio e na disciplina? Faz isso tudo como?
Silêncio.
O silêncio é uma das nossas características marcantes. Até mesmo ótimas professoras têm seu dia não, no qual nada sai como deveria e a aula parece um umbral. Somos humanos. Também já dei muitas aulas que não convenceram nem a mim. Já desencarrilhei e louqueei. Sobrevivi. Todos sobreviveram. E a vida continua. O sol sempre retorna e continuamos interessadas e criativas
—        A amorosidade requer disciplina, entrega riscos e convive com silêncios, mas tudo isso precisa ser uma preocupação inventiva que não venha apenas da boca para fora. — o Arthur interrompeu o Paulo com a impetuosidade da sua juventude, fala sem alterar a voz, não olha para os lados, apenas diz o que não quer — Não queremos uma educação metafórica, queremos?
—        Quem sabe, Arthur, o que nos espera dessa educação feita com o coração, mas não apenas com o coração, seja aquela que não prega o medo, nem se apresente cansada com a vida.
Olho à nossa volta, uns conversam, outras fecham os olhos, bocejam, escrevem em seus cadernos de frequência, quase peço ao Paulo, Chega, Paulo. Basta de falar para ouvidos que não escutam. Não querem ou não conseguem ouvir além das queixas. Encontro o olhar do Paulo. Silêncio. Quando ele fala parece me dirigir seu afeto
—        Sendo necessário, caminhemos sozinhos os primeiros passos. Aproximando ou permitindo que se aproximem outros já não estaremos desacompanhados, mas tecendo a teia de fazer diferente, construindo outra história com os sabores intensos e coletivos da vida, longe dos choros desimaginativos e das reclamações áridas. O poder não está dentro da escola, mas a sua força opressora tem paredes fortes e mecânicas.
O Paulo para, a Lia está com a mão erguida e impaciente
—        Desculpe, Paulo, mas isso do poder dentro e fora da escola é muito importante. Eu demorei a perceber que me ensinaram a vida toda a ser espantalho. O poder fora da escola espera do nosso trabalho uma reprodução assexuada e fragmentada, para suprir as necessidades do emprego. Mais bonecos e bonecas de paus para mais consumo, mais produção, mais acúmulo de riqueza entre os donos dos bonecos de pau. Os espantalhos de palha vão continuar de braços abertos enxotando os passarinhos?
—        Lia, a escola não muda a sociedade.
—        Muito bem, professora Acemira. Concordo consigo. — essa sou eu — Mas a escola pode ajudar a desvelar alguns tons escondidos. A greve dos trabalhadores do transporte coletivo, por exemplo, sem julgar ou antecipar, nem neutralizar minha opinião, mas gostaria de fazer uma pergunta.
Minhas mãos continuavam tremendo. Senti vontade de roer as unhas. E a minha voz estava rouca, não sei, mas fiz a pergunta
—        Se o transporte público é uma concessão pública por que não se pode ver claramente a planilha de custos das empresas do transporte coletivo? Por que isso não é uma obrigação sistemática. Um dever? Por que precisamos do Ministério Público para ver números que interessam a todos e todas? — não estava mais tremendo, outros que tremam
—        Anita, Anita. São os lucros exorbitantes dos empresários!
—        Não sei, Samuel. Pode ser. Acho que é isso e outras coisas mais. Mas na escola não podemos provocar a discussão sobre o que acontece fora dos nossos muros de proteção?
Percebo o Marko e o Paulo me olhando. Depois olham para o Samuel com um pequeno sorriso nos lábios. A Cabayba não vai perder muito tempo para berrar que os comunistas estão às nossas portas. Entraram na escola, coitadas das criancinhas. Um coletivo cúmplice de mentes educadoras com a esperança de formar pensamentos e ações coletivas. Somos um time, mas não sei se um dia chegaremos a ser um coletivo
—        Que linda aula de matemática sobre planilhas, custeio, salários, lucros! Dar significado para os números.
Incluindo nas almas educadoras, que não se colocam antecipadamente contra qualquer atitude de pensar mudanças, a possibilidade de se educarem numa perspectiva diferente, no sentido da solidariedade amorosa, não no sentido da solidariedade ingênua, em que um afago, um sorriso, um olhar, irá acabar com o sofrimento e a dor da fome, que não é fome só de comida, falta de saúde, de moradia, de se ver e ser visto como ser humano da humanidade histórica. Precisamos nos educar na solidariedade participativa e libertadora, pensando nós mesmos e o mundo. Agindo entre nós e com nossos alunos no mundo. Refletir sobre os gritos e os silêncios que nos fazem passar de fora para dentro, penetrando e continuando em mudança. Fugindo da mistificação do real, a mastigação do social, olhar e enxugar
—        Não aceitar a cegueira fácil da acomodação e da resposta simples, dócil, ingênua e propensa a confiar que no fim tudo se ajeita.
—        Isso, Anita. Necessitamos contrariar conceitos seculares, que, ainda hoje, se arrastam entre nossos pés e vendam com tarjas invisíveis nossos olhos, quando aceitamos sussurros e insinuações estabelecendo que os pobres, que encontramos em nossas escolas, só o são pobres porque preferem pedir a trabalhar. Na hipótese de realmente acreditarmos nisso, pensamento mágico fascistoide que acusa os miseráveis de serem miseráveis porque desejam viver do lixo dos não miseráveis, sugiro que, como forma de protesto, os não miseráveis parem de produzir lixo. E passem a comer o próprio lixo no caso de se tornar impossível deixarem de produzir lixo. Até não sobrar mais nada. — foi a primeira vez que percebi no olhar e na voz do Paulo a cruel e desconcertante mágoa com a indiferença elitista, preconceituosa, autoritária e desigual — Precisamos enxergar o nosso entorno como nunca antes o fizemos e fazer perguntas simples a nós mesmos.
—        Calma, Paulo. A reunião nem mesmo começou e você já quer nos transformar em réus confessos.
O Paulo continuou como se a Acemira não o tivesse interrompido
—        Quantos quilômetros o papeleiro anda por dia puxando o seu carrinho, como se fosse o cavalo? Por certo, faz mais que eu e o meu carro, entre a escola dos sonhos e a minha casa. Quanto do lixo, resíduos das nossas casas, aquela mulher e a menina conseguem recolher por dia de trabalho, tocando o cavalo que puxa a carroça? Alguém precisa se ocupar dessas perguntas.
—        É disso que eu falo, Paulo. O consumo das vidas é tão intenso que obrigamos os catadores a se especializarem. Nos dias de hoje, temos os catadores de lata, outros só catam papelão, vidros quebrados ou não, temos também os catadores dos restos de comida.
O desprezado e apanhado no lixo deveriam ser destinados à reciclagem e aos animais. Galinhas. Porcos. O puxador da carroça. Mas o lixo que sai das nossas casas e vai para a lixeira é usado para alimentar gente, depois os animais. Se preferir não enxergar e não acreditar, como transformar essas mortes em opção pedagógica e material de reflexão didática?
Retorno dos meus delírios a tempo de continuar escutando o Marko
—        O coletivo é um organismo social vivo e, por isso mesmo, é trabalho social útil aos fundamentos de uma proposta educativa coletiva, onde cada um desempenha um papel no contexto da construção do todo, na perspectiva de que não é nem o melhor nem o pior, mas um componente humano importante e fundamental para a felicidade coletiva. Como organizar na escola um sistema de interligação coletiva? Como possibilitar que todos pertencentes a este universo não se percebam isoladamente? Como ter a exata noção do todo que fazemos parte? Distribuindo responsabilidades com disciplina, afeto, em uma permanente discussão coletiva que busca a liberdade. Desoprimindo, livramo-nos da opressão e da solidão.
Penso nas palavras do Marko e me pergunto sobre quem faria esse papel, os gestores da escola? Compreenderão esses personagens o papel que precisam desempenhar? Ah, esses sonhos enfiados em mim
—        Conheço sonhos que são reais nas tentativas individuais dos professores, alguns alunos, poucas escolas e suas comunidades, mas precisamos avançar para mais, muitas mais professoras, milhares de mais alunas, multiplicar nas escolas o pão e o vinho da esperança que brota em nossas pequenas ações do dia após dia. Gente colorida.
—        Lia, precisamos investir contra o egoísmo e o cinismo. Acolher os ingênuos para dizer-lhes que nos queiram bem, mas urge acordar e caminhar. Saboreio pequenos jornais escolares comandados por alunos e professores, a distribuição rotativa e coletiva das funções: fotógrafos, editores, digitadores, repórteres, colunistas.
—        Ai, o Paulo acorda! O Aguinaldo reclama que não tem papel e cotas de cópias para o jornal.
O velhinho olha Cabayba com a seriedade que a resposta lhe pede
—        Quem sabe, aprendamos dar nossas aulas sem as mágicas folhinhas xerográficas? Talvez possamos diminuir coletivamente o seu uso e possibilitar aumentar a cota do jornal da escola. Podemos ter pequenas hortas cultivadas pela enxada empunhada por alunos e alunas. Grupo de teatro, cinema, música, dança, vigílias literárias. Precisamos comprometer a todos com o ser mais, tendo mais humanidade. Semear e proteger a vida, inclusive dos cínicos. Chega de deixarmos que nos roubem quem queremos ser.

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