domingo, 14 de outubro de 2012

Sarau com palavras e fotos

Becos sem saída - Penumbras e Descartes


V
baitasar
Esses dois nunca serão veneráveis, um perneta e uma caolha imunda, almas penadas desfiguradas dos bons sonhos, deformadas das boas aparências, iguais no mau cheiro, é tão difícil ficar em suas mãos, misturado aos seus pesadelos, fingindo um fingimento de quer bem, um livro é um livro, gente de bem é gente de bem, alma penada é alma penada, não tem grandeza, é um preâmbulo de coisa nenhuma, esfomeada do estômago e do espírito perdido, almas sem espírito, sem leitura, sem poesia, caricaturas animadas de ideias semelhantes. Não é possível apaziguar e pôr em pé um saco vazio de farelo e imaginações
—        Ó Velho, tu é mais que um saco vazio de pão. — o velho agachado sobre o pé que lhe restou, bem plantado no chão escuro e úmido, recusa falar, vive o não desejo da cabeça que lateja. Enfiam agulhas para dentro de si, mil abelhas se aproximam zunindo. A menina ajeita a cabeça, assim o olho sem o tapa-olho pode olhar o Velho, e esperar que ele fale enquanto a cabeça lateja. Ela olha e vê o medo fingindo. O próprio desmoronamento que sabia e não sabia do mundo. Cresceu com o silêncio do medo. O Velho precisa inventar uma menina com sonhos para seu corpo de carne e osso podres. É o sem fim. Não existe justiça, nem verdade. Não existe outro ponto de vista, além do ponto de vista da gente de bem. E essa gente de bem sabe contar uma boa história, e uma boa história faz uma justiça ruim ou boa, não importa, seria como olhar para o futuro e ver que não foi diferente. Ninguém deve nada ao feio e defeituoso. O corpo feio não pertence aos sonhos da alma, ela está perdida deles, sem alma não podem ter sonhos. O sonho é a imaginação da alma. Então, precisam se reinventar — Você é a alma, eu sou o corpo.
—        Besteira, não sou alma de nada.
—        A menina é a alma deste corpo velho. — e eu sou um livro perdido, esquecido de leitura, não sou nada além de um livro desusado, feito por fulanos para gente com imaginação — Tolice... para e pensa... uma alma moça em um corpo velho...
—        Chega! Sou o que sou e você é o que é.
—        Isso mesmo, você não sou, eu sou ninguém.
—        Tu é uma alma sem corpo e eu um corpo sem a alma. — um livro sem leitor sou o que sou: uma promessa descumprida, uma possibilidade impedida, uma ilha desabitada, uma escova de dente que nunca foi beijada — Bestagem.
—        Juntos somos um corpo de alma, uma alma de corpo. — já senti orgulho de importância quando havia precisão da imaginação para me ler, as gentes de bem estudavam as estrelas para encantar o amor - hoje as estrelas são cometas que virão destruir - enquanto os velhos resistiam com as entranhas das idades nas mãos, ensinando os novos a ler os ventos quentes da poeira, o brilhantismo do sol e o imprevisto das chuvas —Tu é tu, eu sou eu.
—        Menina... sozinhos, não somos ninguém, somos menos que nada, nos desmancham aos solavancos. — o Velho esfrega os olhos com o dorso de uma das mãos, mas não resulta em mais visão, torna a esfregar com mais força e nada melhor acontece. Então, raspa com a força da vontade e os seus olhos ficam inchando, irritando de ver o que não vê, um cego pelas próprias mãos. A menina se mexe do lugar, em silêncio, chama o Velho a cada instante de outro sítio — Velho, aqui... não ali, aqui! — e assim faz pelo tempo de cansar o Velho. Brinca com a cegueira daquele antigo de existência, aturdido e ardido de coceira, ainda espera por qualquer hesitação — Aqui, não ali... aí, ai, ai, ai.
Depois mergulham em silêncio. Ele fecha os olhos, mais um velho abandonado, agachado num só pé, as mãos unidas em revezamento de reza e sinal de cruz. Só por via das dúvidas. Não havia mais chuva, mas alguns hábitos de respeito são bons conservar. O sinal da cruz e o chamamento do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. É o que salva por aqui, nem a imprensa ou o juiz os ressuscita. A menina devia estar passeando. Levanta e fica olhando na busca de uma chance de apoio, um galho, uma muleta, uma puta — Onde o Velho acha que vai... sem a menina?
—        Não estou querendo pular por ai com alma penada.
—        Temos que continuar juntos. — encolhe uma das pernas e se aproxima do Velho pelo lado sem perna e do tapa-olho. Caminham abraçados seus caminhos, mancando de leve, olhando de lado — Espera, espera!
—        O que foi com a menina, desta vez?
—        Esqueci o livro. — volta-se para mim, jogado ao chão enlameado. Ela me apanha e sou colocado num saco que leva às costas
—        Deixa que apoie os seus ombros.
—        Conversa... a menina é muito pequena, segura na cintura do velho.
—        O passo do Velho é muito largo e rápido.
—        Alarga o teu mais rápido.
—        Não tenho costume de andar pulando... diminui daí, desse lado, Velho, e eu aumento por aqui! — me pergunto por que o destino me reserva companhia tão diferente, tão sem destino — Velho, fala do destino.
—        Por quê?
—        Pra ter o que dizer...
—        Somos apenas um acidente, um aviso que a vida pode ser muito miserável. — o Velho se para por conta própria e olha à frente, uma longa estrada ainda os espera — Não temos fotos... — se não têm fotos, é como se nunca houvessem existido, invisíveis para sempre. A vida censurada pela imagem do silêncio. Gente proibida. Queria ser um livro de fotos para mostrar essa gente censurada, escondida pelo silêncio das imagens que não existem. Queria mostrar o medo de enxergar essa gente censurada. Não queria mostrar o sangue, mas os gritos. Os malditos gritos da vida que não existe para os acostumados com a censura da vida. Queria ser um livro imaginado desacostumado, visível aos olhos da insânia, da fartura, da ignorância: “Está é a verdade! Está é a verdade!”. Imaginado para dar significado ao silêncio
O caminho está divido — Por que parou?
—        Qual o caminho?
—        Escolhe você que é mais velho da vida...
—        Não, escolhe você com a alma.
—        Par ou ímpar?
—        Perdi... vamos pela esquerda. — nessa dupla de mancos e caolhos, quem perde escolhe, sem calafrios ou dúvidas, sem medos ou certezas, um pulo a cada vez, sem surpresas, nem esperança de melhoria, a perna e o olho ficaram perdidos, mergulhados num mundo de silêncio, a escuridão continua sendo uma boa amiga. Estamos perdidos. Bobagem, só se perde quem tem um caminho para seguir. Depois de muito manquejar paramos, também estou pegando o jeito de mancar desses dois desarranjados da vida. Anoiteceu e amanheceram outras vezes, mais chuvas e chegamos a lugar nenhum. O Velho apoiado sobre todo pé que lhe tem, totalmente agachado, olhando os olhos da Alma, abre a boca e não faz leitura decorada. Fica calado. Volta ao segredo da boca fechada. A moça está agachada, tem o desajeito de guri, com gemidos e as pernas abertas, ele não se aguenta e faz reprimenda de pai — Acomoda com jeito de moça.
—        O que foi agora?
—        Modos de menina. — a dor da culpa de olhar e ter visto que não há justiça, não há verdade na imprensa, além da verdade que existe nas fotografias, não existe um lugar heroico para os perdidos, para as putas, para os famintos, para os feios, para os mancos, para os caolhos, esses nem são desaparecidos, é como se nunca houvessem existido — O que é, Velho?
—        Do jeito que está... aparece tua perna pelo começo. — parece impossível que não os escutem, nem os vejam, é trágico que sejam esquecidos, nenhuma vela, nenhum pensamento
—        Pronto, agora o Velho quer ajuntar à alma com a própria vida. — é triste quando são reconhecidos para serem acusados, não sentem suas ausências, não enxergam suas agonias, queria ser um livro das palavras, das fotos, das rugas, da dor, das bolhas de sabão assopradas pela alegria da inocência, um brotamento da vida
—        Calma, menina... apenas não deixa a frouxidão ficar dona do corpo. — o Velho levanta de um pulo com a perna restante, assustando a menina sem futuro — O que foi agora?
—        Só tenho essa vida de perneta, preciso seguir pela estrada.
—        Isso é que importa? — saem em andadura de querença num tempo sem afloramento. As chuvaradas deixam na escuridão o alagamento das águas de barro e lavam os corpos de lata, madeira e tijolo, barracos molhados e ajuntados com os musgos das ruelas sem saída. A morte não vai embora, o silêncio é o fim do que não deveria ter começado. Por aqui, enfiado neste saco da menina alma sem futuro, um corpo sem domação, sem consciência, a alma pode ser uma dualidade distinta do corpo ou um perigo para esses dois que me seguem ou me levam de arrasto, carregado aos trancos e barrancos. Não me sabem mais que eu deles. Vou aos saltos. Quanto mais concebemos a perfeição em uma coisa, mais acreditamos que a causa deve ser também perfeita. E a perfeição é um perigo com seus silêncios de contemplação, provoca a negação do feio e aleijado, uma deficiência que deforma o encanto e a beleza — A mim me basta saber o que vivi, não é necessário viver de novo, a menos que você me obrigue com o seu esquecimento.

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